quinta-feira, agosto 24, 2006

Estou longe... estou perdida!

Ao meu amor...


Longe do Paraíso!... O que vou fazer?...
Se as ilusões me fugiram e não voltaram,
São os fantasmas que me revoltam
Recordações do que sonhei ser e não fui!...

Quem me dera voltar atraz no tempo!
Voltar áqueles dias cheios de verdades...
Nesses,que desejei eternidade,
Porque foi Eternidade, esse momento!

Esta luz que ilumina o meu caminho
Levo a vela acesa porque brilha mais alto
Não deixa fugir nem cair quem está perdido.

Não tenho medo de seguir sozinha,
Mas longe do Paraíso,estou em sobressalto!...
Anda ! vem comigo, porque assim nunca estarei perdida!


Para ti!...

segunda-feira, agosto 21, 2006

Aos olhos dele



Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.
Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!


FLORBELA ESPANCA

quarta-feira, agosto 16, 2006

TORRE DE NÉVOA

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas, e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: "Que fantasia,



Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!..."

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...

Florbela Espanca

segunda-feira, agosto 14, 2006

Começar de novo!!!



Começar de novo
E contar comigo,
Vai valer a pena
Ter amanhecido.

Ter me rebelado,
Ter me debatido.
Ter me machucado,
Ter sobrevivido.

Ter virado a mesa,
Ter me conhecido.
Ter virado o barco,
Ter me socorrido.

Começar de novo
E contar comigo,
Vai valer a pena
Ter amanhecido.
Sem as suas garras,
Sempre tão seguras.
Sem o teu fantasma,
Sem tua moldura.

Sem suas escoras,
Sem o teu domínio.
Sem tuas esporas,
Sem o teu fascínio.

Começar de novo,
E contar comigo,
Vai valer a pena
Já ter te esquecido.

Começar de novo...

Ivan Lins/Victor Martins

domingo, agosto 13, 2006

Amor que morre

O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!


Florbela Espanca

sexta-feira, agosto 11, 2006

Se eu tivesse...




Se eu tivesse olhar profundo,
Para ver os corações,
Veria tantos vilões
Como de seres tem o mundo!
Veria o cinismo fundo
Nas consciências que abrisse
Quanta lama, impostorice
Encontrava a borbulhar !
Á chama d'um tal olhar
Talvez até resistisse...